Quinta-feira, Julho 12, 2007

Doutora Sem Nome

- Salvei-a, não se recorda? Ainda a vi quando abriu os olhos.
- Muito obrigada doutora. Que mais se pode dizer nestas alturas. Que não pedi? Que percebo que é a sua profissão mas que a vida era a minha que lá estava deitada na maca. Não lhe pedi, o facto é que não lhe pedi. Que sirva pelo menos o seu sorriso na cara, por ter salvo uma vida. Sem qualidade.
- Para se ter qualidade de vida é preciso primeiro ter vida. Salvei-a.
- Quero salvar vidas também. Vou concorrer para medicina. Quero sentir que a vida vale a pena ser vivida.
- Parabéns.
- Ainda não entrei. Vou concorrer. Quero sentir pelos outros que a vida vale a pena ser vivida.
- Não é a melhor razão.
- É a minha. Vou concorrer. Pode ser que seja má médica, mas quero salvar quem puder.
- Parabéns, não por concorrer, mas por estar de pé.
- Obrigada, cada dia é mais uma luta. E obrigada por me ter salvo.
- Tive todo o gosto. Não volte é a entrar aqui neste estado, não tem esse direito mais, porque Deus dá só uma oportunidade, sabia?
- Saberei, a meu tempo.

Quarta-feira, Julho 11, 2007

Rua da Misericórdia

Subindo a Rua da Misericórdia a pique, a pé ou de carro, já não me recordo se se pode virar à esquerda, ou contornar e virar. À direita o largo onde os senhores de idade se sentam para ver passar as meninas de saias levantadas pelas ventoinhas do chão. Em frente ainda é mais para pique, na cidade das Sete Colinas, ou de algumas colinas, subidas e descidas. Não se pode andar de bicicleta na cidade de Lisboa, chama-se contra-natura. Não sei bem como se escreverá contra-natura. Se por justaposição ou mesmo aglutinação das duas palavras.
Subindo a Rua da Misericórdia de repente o mundo muda de figura. Afigura-se cada vez mais sujo, se de cinzento do que o rodeia, se de sujo do vidro do carro. Parece como li em tempos nalgum lugar, um sujo resquício da dor de parto.
Há muitas formas de viver, dizem. Conheço a Rua da Misericórdia e muitas outras que me canso só de pensar nelas, em atravessá-las de ponta a ponta. Há muitas formas de viver, dizem, e que o prazer de viver, dizem também, está reservado apenas a quem quer ter esse prazer. É natural que assim seja. Só se reserva uma mesa num restaurante quando a vontade de lá ir é única, e único o restaurante. Senão ir-se-ia a qualquer outro. Onde o prazer talvez não seja tão grande. Mas uma refeição é só e apenas uma refeição, digo. Mas há refeições dignas de deuses, dizem.
Dizem por aí que no fim da Rua da Misericórdia não se vira mesmo à esquerda. Quem diz costuma ter razão. Por agora acreditarei.

Domingo, Janeiro 07, 2007

Morrer na praia.

Toda a gente tem um aquário. Às vezes somos recolocados de aquário em aquário, para um maior, um mais pequeno, com mais pedrinhas e plantinhas falsas para parecer que está tudo bem. E tanto que queremos ir para alto mar, onde há liberdade, e espaço, e as correntes que nos levam e levam, só de pensar faz tudo valer a pena.

Lançam-nos para alto mar, finalmente. Nem uns minutos aguentarei.
Não considero cobardia nenhuma morrer na praia. E se assim tiver de ser, que seja.


a teu pedido.

Domingo, Outubro 29, 2006

Faz hoje um ano.

É incrível o alaranjado persistente dos domingos. É um alaranjado tão deprimente, que se mistura com o silêncio do dia e transforma o domingo num peso que só se aguenta de olhos fechados.
Hoje esteve abafado, um cinzento alaranjado. Hoje andou-se uma hora para trás. Eu também sinto que andei uma hora para trás.
Faz hoje um ano.
Fez hoje um ano.
A memória leva-nos sempre os detalhes das recordações, e tentamos fazer com que eles fiquem até não dar mais. Mas acabam sempre por ir. Ficam só palavras, cheiros, suspiros, pequenas imagens desfragmentadas. Só aquela sensação de que hoje, hoje fez um ano.

Terça-feira, Outubro 17, 2006

Um roubo

Não resisto a colocar este post, não da minha autoria claro, mas roubado a um blog.. caricato:

"Em Portugal, eu sou o gajo que tem mais gajas no messenger. Adicionadas por grupos: "grelo da net", "grelo sem ser da net", "grelo fodível que adicionei porque vi o contacto não sei onde", "miúdas que me querem", "miúdas que insistem que não me querem mas eu cá bem no fundo sei que sim e isso de elas me bloquearem é uma treta para fingir que são difíceis", etc... E depois está tudo dividido de 0 a 10. Conforme o Índice de Fodabilidade.
Mas hoje descobri que tenho uma "gaja do messenger" que tem um Mac. E se há coisa que dá pau, dentro do pouco "pauzável" mundo das gajas que ligam a computadores, é uma gaja a fazer "coisas" num Mac. E eu tenho uma gaja com Mac."

às voltas em sintonia

Ultimamente quando falo, falo por pontos. Ponto um, ponto dois, e normalmente já não me recordo do ponto três quando lá chego. Já nem sei onde apanhei esta mania de falar quase por alíneas.
Falar por pontos é mais organizado, lá isso é verdade, mas não é tão fluído. Não nos deixa começar num canto do mundo e terminar algures na Nova Zelândia já não se sabe bem por que razão. Não nos deixa andar em círculos porque os pontos estão separados, estão estruturados, têm um caminho bastante organizado que devemos seguir. Tenho de parar de falar por pontos e falar como falava antes. Antes quando toda a gente se queixava que eu não conseguia terminar uma única frase, um único pensamento. Que começava a falar da chuva de ontem e terminava no Benfica, sem sequer referir que ontem tinha chovido e sem sequer saber se o Benfica tinha ou não jogado (e nem sei, são daquelas falhas de que me orgulho!). E eu gostava mais assim até. Ficava sempre algo por dizer, acabava sempre por contar ou por dar uma ideia do que queria contar, eu ficava contente, ninguém percebia nada à minha volta. Estavamos todos em sintonia.
Isto de falar por pontos não traz sintonia. Não é sintónico. Gostava que as pessoas usassem mais a palavra "sintónico". Porque além de fazer lembrar gin tónico, tem um significado, é esdrúxula, e quando alguém diz "sintónico" fica com um ar engraçado. Não sei porquê mas fica com um ar engraçado. Deverá ser assim, porque nunca ouvi ninguém dizer a palavra "sintónico", mas gostava muito de ouvir. De ouvir alguém dizer "sintónico" em alto e bom som.

Domingo, Outubro 15, 2006

Há pessoas brilhantes.

We have no more beginnings!

Sábado, Outubro 14, 2006

Pensamento incansavel

Foi-me dito que um homem que está acordado 16 horas por dia, passa cerca de 12 dessas horas a pensar em sexo. E que quem disser o contrário está a mentir. É mesmo assim?

Quinta-feira, Outubro 12, 2006

Saber manter a calma.

É uma das regras de ouro da vida: saber manter a calma, a distância, a serenidade e todas as coisas impossíveis e impensáveis, ao alcance de uma mão tão difícil de estender. Mas às vezes tem mesmo de ser, independentemente de quanto custe e de quanto dinheiro temos na carteira. Independentemente de haver coisa que o valha, e valha a verdade que pouco o há.
Se hoje não comer a última fatia de bolo de chocolate, e deixá-la para amanhã, já foi um passinho. Um dia de cada vez até completar uma semana, um mês, um ano... Eventualmente o bolo deixará de prestar, e passa-lhe a validade, e esqueço-me dele.
Mas se hoje comi a última fatia de bolo de chocolate, então amanhã já não posso trazer bolo de chocolate para casa. É a medida drástica que se segue sempre a uma falta de uma boa respiração, pausada, concentrada. Especialmente concentrada. Existem por aí especialistas, que ensinam a respirar, que sabem como se deve fazer. Enquanto não for ver um especialista, ou me trazem uma botija de oxigénio, ou continuo com esta respiração irregular. E desta vez, que será tudo menos a última, até terei que suster a respiração por instantes. Lá está a medida drástica, que vem sempre, como as finanças, tarda mas não falha!

Quinta-feira, Agosto 10, 2006

One Art

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster,

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three beloved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) a disaster.

Elizabeth Bishop

Sábado, Julho 29, 2006

Para ti Luís, que um dia acredites

É como a história do Pedro e do Lobo. Os anos passam mas a história nunca muda. Não sei qual foi o período de tempo em que o Pedro inventava que o Lobo lá vinha, se foram anos, se foram meses ou se foi tudo numa só semana. Nem sei que tipo de pessoa era o Pedro, ou se isso sequer tem alguma relevância para a história.
Há tempos alguém me disse que o grande problema das mulheres era lerem as revistas como a Cosmopolitan e acharem que a vida de facto podia ser assim. Mas que não era. E na altura lembro-me de ter respondido que a minha vida podia ser tal e qual eu quisesse que ela fosse. Que podia ser cópia integral de uma revista, ou de um filme, ou nada disso. Na altura julguei que tinha razão. E talvez tivesse um pouco. Mas há uma parte da vida real que é diferente da ficção. E as pessoas merecem um pouco mais do que reles comparações a personagens fictícias ou a histórias populares desgastadas.
Claro que também os meus netos vão conhecer a história do Pedro e do Lobo. E quem sabe os netos dos meus netos.
Não sei o que fez o Pedro depois do Lobo ter finalmente aparecido e ninguém ter acreditado nele. Não sei se finalmente entendeu como tinha errado, ou se o Lobo simplesmente o comeu e acabou a história. Não me interessa o que fez o Pedro ou qualquer outra pessoa, sabes?
A história do Pedro e do Lobo é eterna, Que seja!
Interessa sim o que eu fiz. As pessoas não mudam, não de forma de facto relevante, mas esforçam-se. "That's what relationships are about - sacrifices." Eu dei o meu melhor, mostrei aquilo que tinha de melhor, da forma que o momento me permitia. Dei valor e estimei, e dou e estimo, e daria e estimaria a tua amizade. Esforcei-me, bolas! Eu sei bem o que valho, sei que posso não merecer a tal nuvem no céu de que estou sempre a falar. Posso ter errado tanto, e ainda vou errar, é assim mesmo.
Mas contigo, há anos que não errava. Há anos que te acarinhava no meu pensamento, e que eras para mim, finalmente, tu, de facto tu. Tu, a quem dava, e dou, tanto valor. Bolas, e que valor! Esperei anos, estava disposta a esperar tantos outros, mais até. Provei-te por a+b que podias finalmente dar-me a tua mão sem desconfianças. E tu não foste capaz, ou não quiseste, ou simplesmente não foste mesmo capaz. Não sei se quiseste acusar-me de todas essas invenções por assim ser mais fácil para ti, porque assim não precisavas de viajar com o peso de um afecto. Porque assim não tinhas nada que te prendesse. Ou se quando me acusavas, acreditavas mesmo no que estavas a dizer. Ou se te é realmente indiferente, isto tudo.
E eu disse-te que acabou. Que acabou de vez. Que quando olhasses para trás e visses que erraste, que já seria tarde demais.
Não sei o que a vida me reserva. Sei sim que tem de chegar o dia em que me saiba estimar de maneira a pôr um fim naquilo que me magoa. Por mais que me magoe pôr esse fim. E esta é apenas uma forma de te provar, a ti e a mim, de que eu dei e dei e dei, mas que quando pisaseste toda a ternura que te dava e todo o carinho, que foi mais do que eu podia aguentar.
Não te condeno. É a história do Pedro e do Lobo. Só tu podes decidir por ti. E eu posso decidir por mim, e foi o que fiz.
Doeu deitar abaixo o que demorou tantos anos a ser construído. Bastava teres acreditado em mim uma vez, e nas provas, nas tantas e intermináveis provas que te dei, de confiança, de amizade, de carinho, de tudo o de bom que tenho para dar a alguém. Bastava teres acreditado, só uma única vez. Mais tarde quando descobrisses a verdade, verias que valeu a pena teres acreditado, e não teria sido preciso nada disto.
Doeu deitar tudo abaixo. Não sou de ferro, nem de aço, nem insensível, talvez pouco equilibrada, isso talvez, mas sou tudo menos insensível.
Sem entender porque é que faço ou digo isto, talvez na esperança de que tudo isto tenha sido só uma pesadelo, vou pedir uma última vez, sem saber se me ouvirás algum dia: acredita em mim. Sem que isso mude nada, mesmo que isso já venha tarde demais para mudar alguma coisa.
Eu estou aqui, eu estou aqui como estive todos estes anos, no mesmo lugar. E o que não dava por um olhar, uma palavra. Não preciso sequer da palavra "desculpa". Era só que acreditasses na verdade. Mesmo que tarde demais, e tenho medo desse tarde demais. Mas era só que acreditasses na verdade. E que entendesses, ou que visses só, o quanto isso significa para mim, como pessoa, para mim, para provar a mim própria que mudei e que não sou só eu que sei disso. Que mudei para mim e para os outros. E que também os outros vêm e sabem dar valor ao meu esforço e mudança. Que tu sabes dar valor ao meu esforço e mudança. E isto foi um esforço enorme, e é, e eu dou o meu melhor.
Eu merecia que tivesses acreditado em mim, só desta vez, nem que só desta vez.. Eu merecia.

Sexta-feira, Julho 28, 2006

Denial.

It's not just a river in Egypt. It's a freakin' ocean!

Quinta-feira, Julho 27, 2006

AGOSTO OU A MOEDA

Repara bem. A vida olhada como uma moeda. Nada de mais redondo, conclusivo, perfeito. Simétrico.
Olha pois. Amacia-a entre os dedos, sente-lhe o peso, avalia as possibilidades. Escolhe uma face ou uma face te há-de escolher.

Quarta-feira, Julho 26, 2006

You don't get to call me a whore.

- You don't get to call me a whore. When I met you, I thought I had found the person that I was going to spend the rest of my life with. I was done. So all the boys and all the bars and all the obvious daddy issues, who cared, because I was done. You left me. You chose Addison. I'm all glued back together now. I make no apologies for how I chose to repair what you broke. You don't get to call me a whore.

- This thing with us is finished. It's over.

- Finally.

Quarta-feira, Julho 19, 2006

Baby, eu p'ra ti já dei!

Há que saber distinguir as aventuras do que é vida a sério. E o que tecemos em sonhos daquilo que de facto vai acontecer.
Se faltasse uma semana para me casar, com o meu melhor amigo, o homem perfeito, para mim, para a minha família, para a minha vida, para por dentro e por fora. E tivesse nas mãos um bilhete de ida para as Bahamas, e com volta marcada para o dia antes do meu casamento. E do outro lado, lá longe nas Bahamas, tivesse alguém que só se descreva com um suspiro. A McDreamy kind of guy. Será que eu apanhava o avião? E voltaria?
Tenho ideia de que quem não pode ser descrito por palavras, mas só por um suspiro, não dura mais do que suspiro e meio, e não merece mais do que dois suspiros no máximo. E que ao fim de um tempo a pessoa até se cansa de tanta supirar e quer respirar normalmente. Good air in, bad air out.
Mas e a vida onde os suspiros só chegam na altura do Natal e em forma de bolo? Bad air all around us? E as Bahamas tão chamativas...

Eu podia ir. Apanhava o avião. Voltava. Casava. Passava o resto da minha vida a relembrar com receio (não é bem receio mas vá) aqueles suspiros. Mas a pôr a mesa e fazer o jantar para a minha família, e ir pôr as crianças à escola, e a fazer arroz de peixe com carinho ao domingo para o almoço. E deitava-me à beirinha da cama à tardinha a lembrar do sol da altura em que suspirava...

É verdade que quem não arrisca não petisca, mas também é verdade que quem anda à chuva molha-se. Por isso, baby, acho que eu p'ra ti já dei!

Terça-feira, Julho 18, 2006

Vendo o meu QTEK S200

que é novinho em folha (tem 2 meses de vida)! E quero vendê-lo muito rápido sff e obrigada, por isso quem estiver interessado, please give me a call, ou deixe um comment aqui. Não é aqui exactamente, é ali mais em baixo.

A propósito, fui ver o The Break Up, e é UAU. Mas é só UAU se se tratar de uma mulher a ir vê-lo. Só uma mulher entende que "I want you to want to do the dishes".

Quinta-feira, Julho 13, 2006

Mas afinal...

...o que é um "GRAFO" exactamente falando?

Domingo, Julho 09, 2006

E TUDO O VENTO LEVOU

Quando algo de grave, ou agressivo, ou sofredor ou simplesmente insuportável de suportar acontece, há sempre duas formas de reagir. Ou chorar chorar chorar, desalmadamente, limpar as mágoas, lavá-las com água e sal e esperar que sequem. Ou não reagir. Abrir os olhos com muita força e não reagir. Encostar a cabeça contra a parede, ou correr com muita força, ou parar de tal forma que até a inércia desaparece. Chama-se choque. Chama-se parar no tempo. Ficamos imobilizados, tudo anda a mil à nossa volta, e não anda de todo. Está tudo parado, o nosso coração parado, a bater mas parado, à espera, à espera de quando vamos acordar e perceber, e ver. Que tudo se desmoronou. E querer voltar para aquele estado de choque, onde sempre o sofrimento estava preso por uma mola e ainda não o tínhamos vestido. Porque as lágrimas na verdade não lavam a alma, são só água, não muda nada, e o peso de cada uma parece mil vezes maior do que o que é. Daquelas lágrimas que não escorrem pela cara. Que caiem no chão, de tão pesadas que são. De tanta água que carregam.
Quando se sai do choque, e se fecha os olhos, é quando olhamos para dentro, nos enroscamos em nós próprios. Agarrar a almofada com a força com que se quer agarrar a vida naquele instante.

Domingo, Junho 18, 2006

Maya is never wrong!

http://astrologia.sapo.pt

Quinta-feira, Junho 15, 2006

Dizem, eu sei, que nunca te libertarás dessas
sombras. Que nunca o teu nome há-de respirar,
solto, limpo dessas presenças tutelares, vigilantes,
marcas incorpóreas que te esmagam e torcem a
cada volta do ar.

Em ti, dizem, reside o efémero, o insubstancial,
o que é prenúncio apenas. Não és mais que um
ponto de chegada, um instante de passagem,
E sempre, sempre, sempre, sempre, carregando essas
sombras que se esbatem nos contornos das tuas
formas, da tua existênia fugaz, Elas sim, as sombras,
são perenes. Elas nasceram do que aí estava
antes para vir agora pousar, espalhar-se por ti,
sobre ti, em ti. Porque elas são os séculos e tu és
sopro. Porque nelas mora o conhecido e o feito e
tu és tão só o vislumbre.

Dizem.

Mas só eu sei que, quando a noite chegar - e ela
há-de vir - nenhuma sombra dançará mais sobre
o teu corpo, ele próprio também engolido pelo
mesmo negrume final - único, absoluto, esse sim,
eterno e verdadeiro. Tudo o mais são fotografias.

Quarta-feira, Junho 14, 2006

A enfermeira Cristina

A enfermeira Cristina diz que há pessoas que são simplesmente fracas. E que não é para se condenar, que é natural, que não têm força para aguentarem a pressão de dar a mão a alguém, e de a segurar por algum tempo. Que podem fazê-lo de forma consciente ou inconsciente, mas que no fim, acabam sempre por se ir embora, seja qual for a situação.
Um dia alguém me disse que os caminhos se fazem a caminhar, e que cada um deve caminhar por si próprio, e concentrar-se nesse caminho. Não sei que raio de ser humano pode pensar assim. Ou que raio de ser humano acha que pode ser assim.
E quando as noites parecem meses, e os meses oceanos? E tempo é o que mais temos, para correr em todas as direcções sem saber para qual?
A enfermeira Cristina pode ter razão, e eu não condeno, e quem sabe até perdoo. A explicação pode ser perfeita, mas na prática, que diferença é que isso faz? E afinal, o que devo eu fazer se todas as noites parecem meses, e todos os meses oceanos?

Terça-feira, Maio 30, 2006

My first strip club

O meu maior sonho (para além de ter uma casa no Mónaco) é abrir um clube de striptease. Mas nada vulgar como se vê por aí, nada de imitações da Passarelle. O que eu quero é strip feito com arte! Porque tirar a roupa é tão artístico como pintar um quadro. É preciso resistência, flexibilidade, sensualidade, capacidade de improvisão, e talento, acima de tudo talento... Tantas qualidades precisa de ter uma stripper de verdade! E depois fazia dias temáticos. Um dia eram todas professoras da escola primária a darem reguadas, noutro dia podiam ser bombeiras. Ou então imitação de animais, as meninas todas enroladas à volta das barras a fazer de serpentes. Até tenho imaginação para o negócio.
Mas quero dança, quero ensaios, quero as meninas todas a fazer aquilo profissionalmente, com classe, de cabeça erguida, ombos relaxados, posições extravagantes, e sem nunca nunca tocar nos clientes. Apenas roçar ao de leve, mas nada de toques.
Mas quem diz meninas também diz meninos. Não posso abrir um negócio a ter como segmento de mercado apenas sexo masculino, ou apenas sexo feminino. Uns dias até posso criar strip misto, uma salsa latina a dois em semi-nu.
No fundo, quero que ir a um clube deste tipo deixe de ser tabu, ou barely legal, e passe a ser como uma ida ao cinema. Por isso vou querer publicidade em todas as ruas, folhetos nas caixas de correio, referências ao sucesso do meu clube nas revistas.
Até aqui tudo rosas, mas no entanto falta-me o essencial: um nome para o clube. Quero algo subtil mas ao mesmo tempo ligeiramente insinuante. Claro que posso sempre optar pelo básico e chamar "Liza's" ou "chez Liza". Mas quero ter uma maior escolha. Preciso claramente de sugestões de profissionais da indústria, como a Anormaleca por exemplo, que aos 6 anos já comprava cuecas com rendinhas para dançar agarrada à barra. Há quem nasça stripper de alma e coração.

Domingo, Maio 28, 2006

dear anonymous, who finished my song

Preferia que tivesses um nome, mesmo que fosse daqueles nomes que só os professores de hip-hop sabem dar a si próprios, como Xavier, ou Ramon, ou um homólogo de Ricky Martin + Boss AC.
Preferia que tivesses um nome, tal e o qual o senhor da portagem que já há dias que não vejo, que se calhar trocou de turno, e o nome dele nem era para se saber.
Podia eu te dar um nome.
Só me ocorre chamar-te de "silêncio", que é como se fica quando se fica sozinho e a pensar com muita muita força em alguma coisa.

Quarta-feira, Maio 24, 2006

Fidelidade

Quando antes pensava em fidelidade lembrava-me sempre do meu cão e no quão ridículo ele é quando está na rua e nunca se afasta de nós para não nos perdermos dele. E de como ele é fiel a quem lhe põe a comida no prato. Toda a gente exige de toda a gente fidelidade. Seja por respeito, seja por conveniência, seja por moda, ou seja por razão nenhuma.
Nunca exigi fidelidade a mim própria, e sempre considerei o termo bastante dúbio. Turned out que ela apareceu. Veio sozinha, sem exigências, e sinto agora que se não for fiel a mim, não terá então sentido nenhum. Não sei se consigo generalizar para tudo à minha volta, mas pelo menos é um começo. Uma certeza inabalável à qual quero ser totalmente fiel. E por sê-lo agora é como se houvesse uma lacuna entre mim e tudo o resto. Não quero mentiras nem falsas promessas, não quero nem de mim para mim, nem de mim para quer que seja. Nem de quer que seja para mim, mas isso não posso exigir. Foi sempre o meu argumento quando eu era o feitiço e não o feiticeiro.
Parece então que ser fiel nem sempre é bom. Mas faz com que tudo fique tão mais claro.

Segunda-feira, Maio 22, 2006

Amanhã vem a SIC!

Se calhar até é verdade aquilo que dizem, que somos responsáveis pelo que nos acontece, que a culpa é nossa e só nossa. Que quando dizemos que a vida é madrasta estamos apenas a tentar desculpar o nosso falhanço.
Não temos então direito a um falhanço? Ou por cada falhanço tem que vir sempre um julgamento? Tão fácil é atirar pedras. Tão fácil é recuar e fingir que já não está nas nossas mãos ajudar a levantar do chão.
A verdade é que a verdade dói e por isso mentimos. Podia despejar um cliché e dizer que prefiro a verdade. Não prefiro.
Podia agora dizer que gosto que me mintam, mas também não gosto. Não há a escolha perfeita entre estas duas.
A vida vai andando para a frente, e os meus olhos vão deixando de ser peixes verdes para passarem a ser apenas os meus olhos. E as coisas que penso vão colapsando umas nas outras. Por isso às vezes peço ajuda, e quando peço é porque preciso, e é porque preciso como se de oxigénio se tratasse. E como tudo na vida é tão simples quando isto, e como tudo na vida espero uma resposta tão simples como um sim, ou um não.
E se realmente a culpa do que nos acontece é nossa e só nossa, então cá vai: a SIC vem cá amanhã!! Que seja nossa e toda nossa essa culpa.

Domingo, Maio 21, 2006

goodbye and go

One of these days, you'll miss your train, and come stay with me.
We'll have drinks and talk about things and any excuse to stay awake with you.
We'd be good, we'd be great, together.

Sexta-feira, Abril 28, 2006

FORUM (ideia da Anormaleca)

Hoje temos várias questões em discussão.

1) Será que o homem da portagem quer mesmo ter um affair comigo?
2) Na sua opinião, no episódio de ontem da série House (TVI), porque terá Cameron se demitido?
3) Na próxima festa, irá Barely Legal deixar Timmy Retarded pelo Marinheiro Tó?
4) Como reagiu à notícia de que o Gordinho vai para Delft?
5) Afinal, por quanto mais tempo irá Brígida Não Faz, não fazer?

Quarta-feira, Abril 26, 2006

4 motivos para dar uma festa

1) porque necessito de Tai-Chi porque o meu Feng-Shui está descontrolado e isso dá-me mau Karma;

2) porque quarta feira , 4 de Maio, 2006, 2 minutos e 3 segundos, depois da 1:00 AM da manhã, as horas e o dia serão assim:
01:02:03 04/05/06;

3) porque ontem estive fora, não sei se um dia se meia hora;

4) porque a minha empresa é a maior empresa do mundo!

Sábado, Abril 22, 2006

Quando alguém me pedir em casamento.

Cada vez se perde mais e mais o sentido do casamento. Porque é só um papel, é só um documento assinado, e que não é um anel que vai fazer a diferença. "Não faz qualquer sentido" dizia-me alguém há uns tempos. E não faz, e todas as razões que conseguirmos encontrar para justificar a parvoíce de um papel assinado representar alguma coisa, para além de se calhar ajudar a obter um crédito habitação, são perfeitamente válidas.
Mas também é válido que a vida é só uma. E o casamento tem muito mais do que uma união de facto. Tem os intermináveis preparativos para a festa, tem a festa e as roupas e as fotografias. Todas as prendas para desembrulhar. A casa nova, ainda a brilhar e já repleta de molduras com sorrisos lá metidos. O anel na mão esquerda, que olhamos e olhamos ao início - é como ter uma fotografia na carteira, é exactamente o mesmo.
Se eu viver com alguém, simplesmente transferi roupas e coisas pessoais para outra casa, nem ninguém precisa de saber. E posso-me ir embora quando assim quiser. Não fiz quaisquer votos, nada jurei e portanto saio sem quaisquer remorsos. E assim vou saltando de casa em casa. Também se pode saltar de casamento em casamento, mas tal como um médico faz tudo para salvar um paciente, também se tenta tudo por tudo para se salvar um casamento. Mas se apenas viver contigo, simplesmente saio, e nem sequer preciso de rasgar ou assinar papéis, porque foi tudo produto da nossa imaginação no final de contas.

Quando alguém me pedir em casamento, tem que vir acompanhado de um anel discreto com pérola (porque a mãe da Anormaleca diz que é assim que tem de ser) e diamante. Mas discreto. E o pedido tem de ser honesto, tem de ser pensado, tem de vir com tudo a que um casamento tem direito. Para poder andar seis meses à procura do vestido perfeito, do local perfeito, do bolo perfeito.
Quero-me casar pela igreja, não porque ache que isso fará alguma diferença, mas porque faz parte. Há quem sonhe com computadores, carros, motas, eu voo mais baixo e quero apenas casar pela igreja. E como nos filmes, quero que cada um escreva os seus votos, apenas os que quiser fazer
Quero um noivado de verdade, com festa de noivado, com almoços e jantares de anúncios à família. Sorrir para todos, conhecer todos.
Muita gente gosta de dizer que a vida não é como nos filmes. Mas agora discordo, porque a minha vida é aquilo que eu quiser fazer dela, e se quero criar, mesmo que por algumas horas, um pequenos filme cor-de-rosa na minha vida, então seja. E não é porque alguém estabeleceu que a vida não é como nos filmes que vou deixar de fazer gincanas na piscina, que vou deixar de criar festas temáticas, de fazer autopsias a corações de vaca, de sonhar trazer a revista da Playboy para Portugal. Quem sabe se não começarei a fazer Lap dance, ainda antes de me casar pela igreja.

Terça-feira, Abril 18, 2006

"only i get to touch on the white board"

"Querido Eduardo,

Ontem não conseguia dormir a pensar nisto. Virava-me para um lado e para o outro e no entanto sabia que não ia conseguir adormecer enquanto não te dissesse como me revoltaste. Levantei-me então, pronta a dizer-to, a explicar-te com as palavras que me viessem à cabeça, sem medo de pensares que estou simplesmente desequilibrada. Pensa o que preferires porque isso já não me incomoda.
Mas apareceste, e acredita que não estava à tua espera, de todo. Penso que em nenhum momento estive. E nem percebo porque decides impôr a tua presença dessa forma discreta que aleija mais do que uma facada profunda.

Desde hoje de manhã que sustenho a respiração na hesitação de sem querer tomar uma atitude, porque não a quero tomar, nem sei qual a atitude mais acertada. Nunca tive jeito para esperas vãs e dias perdidos. Não sei o que pretendes, eu acho que não pretendo nada. Apenas não consigo tirar as tuas imagens da minha cabeça. Há uma parte de mim que não as quer apagar, e há outra que simplesmente não pode viver com elas.

Deixaste-me esta estúpida hidra da esperança. De todos os dias para todos os dias."

Domingo, Abril 16, 2006

Onde fica o tal restaurante CASO BICUDO?

Caso Bicudo-Actividades Hoteleiras Lda

Morada: Rua Particular-Quinta Bicuda Torre
2750-693 CASCAIS

Mapa disponível AQUI!

Se ainda assim tiverem dúvidas, telefonem-me!

Quarta-feira, Abril 12, 2006

As 3 doenças do seculo XXI do mundo "civilizado". Parte I

O CANCRO

É uma espécie de conflito interno, só que palpável. É uma parte do nosso corpo que passa para o lado do inimigo e começa a ter filhos como se vivesse no Ruanda. Tem milhares e milhares de filhos, ou de gémeos ou de clones, que depois ou se juntam todos numa grande bola de neve e ficam quietos, ou entao vão conquistar o mundo, cada um na sua direcção.
Há tumores benignos e malignos, no entanto, os benignos não fazem propriamente bem, é um benigno no sentido ainda não maligno, ou seja, ainda no formato bola de neve.
Para surgirem tumores, não basta um factor, são precisos pelo menos dois: o que inicia e o que promove. E portanto tudo o que dizem sobre os fritos, e o tabaco, é tudo verdade. Se na minha família houver predisposição para o cancro, e se eu fumar muito ou comer muitos fritos, pode haver algum constituinte cancerígeno que promove o que a predisposição genética da minha família já começou!
Há tempos descobri que há cancros que têm dentes e unhas e cabelo. São células cancerígenas que surgem da mutação de células estaminais, ou seja, que se podem diferenciar em vários tipos de células, que são as células dos embriões, que originam os órgãos. Serão estes cancros inteligentes?

Quinta-feira, Abril 06, 2006

Tutorial para festa de anos da Liza (que sou eu)

Lista de Prendas
Escala
1- Acho que não morro se não tiver mas preciso
2- Só close to my heart
3- Muito close to my heart
4-Único e inimitável

- DVD Série 1 "House" no amazon.com (4)
- Fio de prata fininho ou inox, desde que não fique verde (2)
- PEN (3)
- Medalhinha pequena para o fio (2)
- Casaco tipo sweat mas com fecho, curto, para a dança contemporânea (qualquer cor, mas bonito!) (3)
- Camisa branca às bolinhas coloridas da Bershka (1)
- Top cai-cai com brilhantes (1)
- Rato wireless
- Mala azul (1)
- Estojo pequeno para canetas (1)
- Produto para limpar o ecrã do mac (2)
- Aspirador mini dos chineses para aspirar os tapetes do meu carro (1)
- Espelho alto qualquer do IKEA (há muito baratos) (2)
- Almofada do Gato Preto com poema de Camões (1)
- Caneta cor-de-rosa (1)
- Escova de dentes eléctrica (1)
- Roupas (top ou calças) de dança (3)
- Top colorido para o verão (2)
- Sapatinhas de ginástica coloridas - 38 (3)
- Saia da Zara da secção de fatos de treino, só que é saia (qualquer cor) (2)
- Cinto (não castanho) (1)
- Pulseira que faz tlim-tlim (2)
- Livro com imagens do interior do corpo humano (um qualquer de anatomia) (2)

Lista deNão prendas de aniversário
- Aneis
- Porta-chaves
- Coisas de banho
- Bonecos (detesto todos!)
- Livros de banda desenhada (detesto todos!)
- CD's de músicas em que não há pessoas a cantar
- Velas e incensos (cheiram todos mal!)
- Chávenas (já tenho muitas)

Segunda-feira, Abril 03, 2006

Porque é que o Gordinho não vai trabalhar na minha empresa

Antes de mais tive uma baixa, a minha empresa perdeu o Joelhos à Mostra. No entanto, adquirimos um novo funcionário para sub-chefe de uma secção, o Raspa na Mão (rimou). Mas este post serve para analisarmos a candidatura do Gordinho ao posto de o Musculado da Empresa. Vamos então ver.
De facto, Sr. Gordinho, as fotografias que nos mandou em semi-nu impressionaram a Soraia da contabilidade. Como sabe, a Soraia para nós, é uma grande referência. No entanto, Sr. Gordinho, achamos que os seus caracois já não estão na moda e ainda, como sabe, nesta empresa já se deixou de usar calças com o cinto ao peito. Assim sendo, o Sr. Gordinho não pode passar à fase seguinte deste concurso. De qualquer modo, e digo-lhe isto informalmente por não querer perder um talento como o seu, em breve a D. Amélia da reprografia vai-se reformar. A Kátia vai passar para o lugar da D. Amélia. Surgirá, portanto, uma vaga para Pessoa Infeliz com Muitos Problemas Pessoais. Sabendo à partida que este cargo lhe deve interessar envio o seu curriculum para os recursos humanos cá da empresa.
Com os melhores cumprimentos,
Magali
P.S.- Só aqui entre nós, um aconselhamento profissional, não parece sério usar o nome de Gordinho até porque não se adequa a si, já que tem uns musculos de fazer suspirar.

Sexta-feira, Março 31, 2006

A menina do WC, a Anormaleca.

Era de tarde, estava um tempinho cinzento e a Anormaleca esperava os seus colegas de escola numa sala para ir a uma aulinha. Os colegas demoravam-se, então a cara amiga aproveitou para ir à casa de banho muito rapidamente. Deixou a sua mala, livros e cadernos na sala onde estava, e dirigiu-se à casa de banho mais próxima. Entrou, não estava ninguém, puxou a porta atrás de si. Olha para trás e no que repara, a porta está trancada, e não há maçaneta na parte de dentro. A Anormaleca está agora fechada dentro de um cubículo com área um por um, sem mala que deixou na sala e sem telemóvel. Começa por bater na porta para chamar a atenção. Ninguém acude. Bate bate bate na porta, minutos passam. Ninguém aparece. Então a Anormaleca tem uma excelente ideia, vê um espacinho por baixo da porta e pensa "eu sou meia leca, devo conseguir passar". Baixou-se, esticou as pernas (passaram!), continuou a empurrar-se para o lado de lá, tudo estava a correr bem, até que percebeu que estava entalada e não passava mais. Pensou para ela "vou fazer o caminho para trás". E assim começou, a puxar-se para dentro do cubículo. Mas, não era o seu dia de sorte. No caminho de volta entalou-se de novo.

Síntese da cena: A Anormaleca deitada por baixo da porta no chão da casa de banho, com as pernas para um lado e o resto do corpo para outro.

Com a cabeça praticamente a bater na sanita, entalada na porta lá se puxa com muita força. E consegue! Aleija-se ,mas o mais importante é que ninguém a viu nesta situação ridícula. "E agora vou gritar por socorro" pensa a nossa amiga. "Ajudem-me, estou trancada na casa de banho". E continua a bater a bater e a bater na porta.
E agora, como é que acaba esta história? Um prémio para quem acertar qual o verdadeiro final, e afinal quem é Anormaleca?

a) A Anormaleca tenta passar de novo por baixo da porta, convicta que uma meia-leca não pode desistir! Entala-se outra vez e desta vez não consegue mesmo sair. Finalmente lá alguém entra na casa de banho e tem de chamar os bombeiros porque não há forma de tirar a nossa amiga do entalanço. O corpo dos bombeiros faz fila para pedir o número de telefone à Anormaleca, e tiram uma foto para dar à Anormaleca, todos nus dentro da casa de banho

b) A Anormaleca tenta arrombar a porta, mas quando bate na porta é empurrada para trás. A Anormaleca cai para dentro da sanita e fica lá entalada. Teve que dormir lá essa noite, só na manhã seguinte a encontraram quando a mãe chamou a polícia porque a Anormaleca tinha desaparecido. O sr. guarda que a encontrou tinha bigode, e a Anormaleca logo sentiu uma forte atracção. Ficaram ali pela casa de banho mais tempo, os dois e tal. E depois lá acabaram por sair. Agora já eram três!

c) A Anormaleca grita tanto por socorro que se ouve na casa de banho masculina. O Genovevo, que é o príncipe encantado da história, entra na casa de banho das mulheres, arromba a porta que bate na cabeça da Anormaleca. Apesar de salva agora tem um traumatismo na cabeça. O Genovevo leva a sua nova amada ao hospital na sua bicicleta. Foi só um susto diz o médico. E a Anormaleca sai do hospital feliz, ela e Genovevo trocam carícias e combinam verem-se no dia seguinte.

Quinta-feira, Março 30, 2006

Salada mista

Das coisas que menos gosto, a que menos gosto, ou a segunda que menos gosta são as pieguices sentimentalóides baratas e espiritualmente pobres. Uma rosa comprada no supermercado entregue à frente de toda a gente. Chamar alguém de "princesa" ou "príncipe". Jurar amor eterno sabendo que é sorte se durar até à hora de jantar. Fazer um pedido de casamento rasco que se sabe que não se vai concretizar. Surpresas óbvias e banais.
Um dia alguém me disse que chamar alguém de "amor" é muito impessoal. Nem sequer precisas de saber o nome da pessoa para o fazeres. Dizia-me "quando me chamares pelo meu nome, sei que é a mim e só a mim que te estás a referir". Talvez tirando os gramas de exagero deste tipo de afirmações, até haja uma certa razão neste tipo de pensamentos. Cada pessoa prefere aquilo que mais o realiza e mais segurança lhe dá. Seja uma demonstração rasca de afecto a voar num cartaz atrás de um avião, ou algo perfeitamente simples como não dizer nada a não ser com um sorriso muito discreto, ou duas passagens aéreas para Paris.
Sempre me julguei muito moderna, muito pró tudo. Mas com o andar da carruagem foram-me caindo certas pecinhas de modernismo. E tornei a minha mentalidade mais pacífica e mais caseira. Agora gosto de cozinhar, é a minha forma de mostrar o meu afecto, seja de que tipo for. É a minha forma de obedecer a "quem ama cuida". Ficar horas na cozinha a aperfeiçoar, e pôr a mesa, e ajeitar tudo, para ficar tudo perfeito. Para que não se ponham defeitos na minha demonstração, para que o que faço ser o reflexo do que sinto. Por vezes pouco se percebe. É igualar um ovo mexido a um "gosto muito de ti"? Será a complexidade da receita escala de amor? Não sei, porque só sinto que quero tudo perfeito, e que a perfeição nunca se perca. Porque quem ama cuida, e isso talvez valha um pouco mais que um boneco a agarrar um coração que diz "I love you".

Quarta-feira, Março 29, 2006

One big happy family

Este país está simplesmente a descer devagarinho pelo cano do esgoto, e a roçar nas paredes, crrrrrr, para depois cair no chão e as ratazanas comerem-no.
Vejamos, dado que as taxas moderadoras nas urgências dos hospitais vão aumentar para 8 euros e meio, quantas vezes pode uma família com 4 filhos que vive do salário mínimo ir ao hospital? Se considerarmos que o pai está preso por ter assaltado a loja de telemóveis da Avenida de Roma, o irmão mais velho é toxicodependente e só vem a casa para comer, os dois mais novos mataram um travesti aqui há tempos e foram para um reformatório, e o do meio é o único que consegue dizer uma frase seguida sem se cuspir todo, e com 16 anos já está no 5º ano (record na família); e se com isto a mãe desgraçada ainda vai ocupar uma das novas vagas de "senhora da noite" nos novos spots do Jardim do Arco do Cego (que a Alameda já encheu), significa que a família ainda vive bem. Portanto se a senhora dona mãe conseguir espremer dois ou três pais de família que conduzem carrinhas com cadeiras de bebé atrás, por noite, e não descontar para a segurança social do meio em questão, consegue só com o seu salário da noite pagar as contas da casa, e usar todo o seu salário mínimo de mulher a dias para ir às urgências. Ora 385 euros a dividir por 8.5 dá à volta de 45 idas às urgências por mês. Que exagero, pensa o governo, se calhar o melhor é arredondar a taxa moderadora para 10 euros para as pessoas não irem tanto às urgências, e construir com esse dinheiro um tecto no jardim do arco do cego que é para criar condições às meninas para quando está a chover.
Mas gosto de viver cá, gosto, gosto de verdade!

Sugestão do dia: soundtrack de "High Fidelity", com John Cusack. Tem duas ou três faixas fantásticas para se fazer striptease.

Segunda-feira, Março 27, 2006

pelo menos um strike

Hoje adoptei a Maria Empada de nome de solteira, que casou com Ramiro Picado de Avestruz (ouriço que vou adoptar também), e que ficou com o nome do marido como manda a tradição. A Maria é muito altiva. Diz que não quer ter filhos para já e que mais isto e mais aquilo, e encaixa perfeitamente na descrição do Miguel Sousa Tavares do que é não ter vícios nem virtudes.

É a nova estirpe, que não chora nem sorri, não come carne vermelha, faz exercício físico e bebe leite para ter ossos fortes! Lê as notícias dos destaques do Público e constrói uma opinião em relação a tudo e opina opina opina se alguém lhes torce o nariz. Não se apaixonam nem se desapaixonam, porque não lhes faz sentido. Por isso não amam nem odeiam porque são tudo exageros, e o seu horário rigoroso não lhos permite. Por isso como não posso com esta nova estirpe, decidi adoptar a pata Maria para lhe ensinar o que é ter uma vida de exageros, cheia de coisas que não fazem sentido, e outras que fazem tanto que até transborda. Também lhe quero ensinar que se pode ter horários e agendas, mas que devemos ter prioridades e que essas prioridades não vêm em forma de papel ou plástico. Estou confiante de que não é uma doença crónica este tipo de vida anestesiada. E também estou confiante que existem mais alimentos para além das couves de Bruxelas e o salmão grelhado, e que existe vida para além das 11 da noite. Eu até nem sou de saídas, mas garanto que pelo menos o Bowling do Alvaláxia fecha para lá da meia-noite.

Domingo, Março 26, 2006

qb

A Pepita de Chocolate raramente se queixa dos domingos. Está demasiado absorvida no seu "the real world" que mal nota que dia da semana é. Mas eu não gosto de domingos. São muito calmos, muito calados, e o sol quando bate vem muito alaranjado. E já percebi que funciona assim noutros países também. Porque o domingo é aquele dia. Mas antes domingo de primavera que domingo rápido de inverno que mal se acorda já é de noite, e o dia além de pouco ainda foi alaranjado.
Há domingos melancólicos, domingos fúteis, domingos frágeis, domingos calóricos e domingos dormentes. Os meus são alaranjados, com ou sem açúcar. E para ti que os passas sozinho, apenas finges que não é domingo, sem adoçante, para manter a linha, direita e intocável.
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