É como a história do Pedro e do Lobo. Os anos passam mas a história nunca muda. Não sei qual foi o período de tempo em que o Pedro inventava que o Lobo lá vinha, se foram anos, se foram meses ou se foi tudo numa só semana. Nem sei que tipo de pessoa era o Pedro, ou se isso sequer tem alguma relevância para a história.
Há tempos alguém me disse que o grande problema das mulheres era lerem as revistas como a Cosmopolitan e acharem que a vida de facto podia ser assim. Mas que não era. E na altura lembro-me de ter respondido que a minha vida podia ser tal e qual eu quisesse que ela fosse. Que podia ser cópia integral de uma revista, ou de um filme, ou nada disso. Na altura julguei que tinha razão. E talvez tivesse um pouco. Mas há uma parte da vida real que é diferente da ficção. E as pessoas merecem um pouco mais do que reles comparações a personagens fictícias ou a histórias populares desgastadas.
Claro que também os meus netos vão conhecer a história do Pedro e do Lobo. E quem sabe os netos dos meus netos.
Não sei o que fez o Pedro depois do Lobo ter finalmente aparecido e ninguém ter acreditado nele. Não sei se finalmente entendeu como tinha errado, ou se o Lobo simplesmente o comeu e acabou a história. Não me interessa o que fez o Pedro ou qualquer outra pessoa, sabes?
A história do Pedro e do Lobo é eterna, Que seja!
Interessa sim o que eu fiz. As pessoas não mudam, não de forma de facto relevante, mas esforçam-se. "That's what relationships are about - sacrifices." Eu dei o meu melhor, mostrei aquilo que tinha de melhor, da forma que o momento me permitia. Dei valor e estimei, e dou e estimo, e daria e estimaria a tua amizade. Esforcei-me, bolas! Eu sei bem o que valho, sei que posso não merecer a tal nuvem no céu de que estou sempre a falar. Posso ter errado tanto, e ainda vou errar, é assim mesmo.
Mas contigo, há anos que não errava. Há anos que te acarinhava no meu pensamento, e que eras para mim, finalmente, tu, de facto tu. Tu, a quem dava, e dou, tanto valor. Bolas, e que valor! Esperei anos, estava disposta a esperar tantos outros, mais até. Provei-te por a+b que podias finalmente dar-me a tua mão sem desconfianças. E tu não foste capaz, ou não quiseste, ou simplesmente não foste mesmo capaz. Não sei se quiseste acusar-me de todas essas invenções por assim ser mais fácil para ti, porque assim não precisavas de viajar com o peso de um afecto. Porque assim não tinhas nada que te prendesse. Ou se quando me acusavas, acreditavas mesmo no que estavas a dizer. Ou se te é realmente indiferente, isto tudo.
E eu disse-te que acabou. Que acabou de vez. Que quando olhasses para trás e visses que erraste, que já seria tarde demais.
Não sei o que a vida me reserva. Sei sim que tem de chegar o dia em que me saiba estimar de maneira a pôr um fim naquilo que me magoa. Por mais que me magoe pôr esse fim. E esta é apenas uma forma de te provar, a ti e a mim, de que eu dei e dei e dei, mas que quando pisaseste toda a ternura que te dava e todo o carinho, que foi mais do que eu podia aguentar.
Não te condeno. É a história do Pedro e do Lobo. Só tu podes decidir por ti. E eu posso decidir por mim, e foi o que fiz.
Doeu deitar abaixo o que demorou tantos anos a ser construído. Bastava teres acreditado em mim uma vez, e nas provas, nas tantas e intermináveis provas que te dei, de confiança, de amizade, de carinho, de tudo o de bom que tenho para dar a alguém. Bastava teres acreditado, só uma única vez. Mais tarde quando descobrisses a verdade, verias que valeu a pena teres acreditado, e não teria sido preciso nada disto.
Doeu deitar tudo abaixo. Não sou de ferro, nem de aço, nem insensível, talvez pouco equilibrada, isso talvez, mas sou tudo menos insensível.
Sem entender porque é que faço ou digo isto, talvez na esperança de que tudo isto tenha sido só uma pesadelo, vou pedir uma última vez, sem saber se me ouvirás algum dia: acredita em mim. Sem que isso mude nada, mesmo que isso já venha tarde demais para mudar alguma coisa.
Eu estou aqui, eu estou aqui como estive todos estes anos, no mesmo lugar. E o que não dava por um olhar, uma palavra. Não preciso sequer da palavra "desculpa". Era só que acreditasses na verdade. Mesmo que tarde demais, e tenho medo desse tarde demais. Mas era só que acreditasses na verdade. E que entendesses, ou que visses só, o quanto isso significa para mim, como pessoa, para mim, para provar a mim própria que mudei e que não sou só eu que sei disso. Que mudei para mim e para os outros. E que também os outros vêm e sabem dar valor ao meu esforço e mudança. Que tu sabes dar valor ao meu esforço e mudança. E isto foi um esforço enorme, e é, e eu dou o meu melhor.
Eu merecia que tivesses acreditado em mim, só desta vez, nem que só desta vez.. Eu merecia.